Poliamor e machismo

Não é porque adotamos um modelo de relacionamento não tradicional que conseguiremos fugir dos problemas tradicionais. Conforme já falamos em outros posts, o ciúme pode continuar existindo, as inseguranças, muitas das discussões. Onde nos diferenciamos é na forma que lidamos com cada adversidade e diferença.

Mas e o machismo? Será que um homem que aceita sua parceira se envolver com outras pessoas, seja sexual ou afetivamente, é porque está liberto do machismo? Obviamente não.

O machismo é um problema estrutural na nossa cultura e por mais que achemos que nos livramos dele por sermos mais “desconstruídos”, mais “esclarecidos”, sempre teremos alguma coisa para repensar e mudar.

O ciúme masculino

É possível ler diversos estudos associando o ciúme masculino à preocupação de acabar gastando seus recursos com filho de outro. Ok! Isso pode fazer sentido enquanto estivermos estudando nossa evolução e o processo de surgimento de sociedade, porém claramente a questão hoje não é a mesma. E mesmo que ainda se queira usar essa desculpa, ela com certeza não cabe mais no nosso mundo.

Sejamos sinceros! Existe toda uma cultura de posse em relacionamento, de masculinidade atrelada a potencia sexual em contraponto a uma feminilidade atrelada a pouca sexualização, de homem não poder assumir fraqueza perante outros homens, além de uma supervalorização do pênis, que aparentemente é a solução para diversos problemas e deve ser o bastante para suprir toda e qualquer necessidade extra que a mulher tiver.

Fica parecendo que na verdade a insegurança do homem no mundo moderno, está atrelada a crença em sua insuficiência peniana, pois este é o centro da sua masculinidade e do seu lugar no relacionamento e no mundo. Tanto que uma traição masculina costuma ser muito melhor vista, pois significa, na cabeça masculina, que ele está “dando conta” de mais de uma parceira, enquanto o inverso significa que seu pau não está bastando.

As relações não mono

O universo não monogâmico também está contaminado com o machismo, pois como falamos no início, esse é um problema estrutural da sociedade. E isso vai dos relacionamentos abertos às relações livres.

O machismo se manifesta quando se quer controlar o lado da parceira nos acordos mais que o seu. Quando tenta definir direitos desiguais com desculpas como ainda estar despreparado. Ou quando se aproveita dos modelos não tradicionais para continuar objetificando corpos e relações. Quando o homem se coloca como a última palavra para fechar os acordos. Quando quer selecionar os parceiros que sua parceira quer ter, mas não aceita o mesmo. E também quando a limita a se envolver somente com mulheres, ainda mais por uma fetichização. É machismo continuar julgando a mulher por sua vivência, sua quantidade de parceiros ou pelo tamanho de seu desejo. E muito importante: é machismo não querer escutar quando ela diz que algo foi machista.

Moral da história

Vivendo numa cultura criada e pensada por homens, certamente podemos concluir que temos regalias para repensar e não tirar proveito delas. Para isso precisamos nos manter atentos e abertos às críticas. E que essas críticas não precisem ser feitas somente por nossos amigos (homens), mas que a gente aprenda a receber bem das nossas parceiras, mães, amigas, tias, sobrinhas, filhas etc.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s